Quando a comida se torna numa obsessão

TP_2014_07_18_fome_ou_ansiedade_banner

Hoje deixamos-lhe aqui uma parte do artigo da nossa psicóloga, Drª Mafalda Leitão, sobre a obsessão pela comida, que saiu na edição de Abril da revista Viva Mais Saúde Viva Melhor.

Há vários tempos que venho a falar da comida, ou do desejo por determinados alimentos, como um vício. Tal como as drogas, o tabaco ou o álcool, também a comida (por exemplo, o açúcar) me parece ser uma dependência. Dependência essa que, como todas as outras, torna-se num problema de saúde pública, ultrapassando barreiras sociais, emocionais e físicas.
Mas como é que a comida pode chegar a ser um vício? Primeiramente, este vício de que falo tem a sua origem num hábito. 40% das nossas rotinas são feitas de hábitos e a qualidade da nossa vida é o resultado direto da qualidade dos nossos hábitos, que vamos adquirindo ao longo de várias experiências.
Importa aqui explicar como adquirimos os nossos hábitos e como se podem estes tornar num vício, relacionado com a obsessão pela comida. Começa por haver um click no cérebro que nos permite escolher qual o hábito mais adequado a usar e, depois, podemos entrar em modo automático. A isto chamamos gatilho. O segundo ponto é a rotina, que pode ser física, intelectual ou emocional, ou seja, o comportamento propriamente dito. E, por fim, existe a recompensa, que indica ao nosso cérebro que esta sequência de comportamentos traz benefícios.
Para ser mais fácil, vamos dar um exemplo. O hábito de comer doces para aliviar a ansiedade ou a tristeza. Temos um gatilho emocional (a ansiedade), e temos a recompensa (o alívio da ansiedade). A parte má desta hábito é o comportamento ou a rotina que, apesar de aliviar a ansiedade, pode levar à obesidade. No fundo, todos os hábitos são desenvolvidos para alcançar uma recompensa. Recompensa essa que torna os hábitos muito poderosos, devido à dependência neurológica que a recompensa cria no nosso cérebro. Ou seja, o desejo pela recompensa é tão intenso, que o hábito pode tornar-se num vício. E a linha que separa o hábito do vício, por vezes, é tão ténue que temos dificuldade em diferenciar. Contudo, esse vício ou essa obsessão existem quando a pessoa já não consegue viver sem eles.
Por exemplo: escovar os dentes é um hábito; mas se tiver de ir dormir uma noite sem os escovar, por alguma razão, não é o fim do mundo. Agora imagine que teve uma discussão com alguém e está muito triste. E, normalmente, compensa essas emoções com comida. Ora, depara-se com esta situação e não tem comida em casa. O que faz? Pensa noutras alternativas para compensar essa tristeza (e até aí tudo bem); ou tem de ir a um café, por exemplo, e comprar uma coisa qualquer doce ou salgada para comer? E isto acontece constantemente? Aí entramos num campo de vício ou obsessão.
Por isso quis falar nos hábitos e nos vícios para que percebesse o que se pode estar a passar consigo. O comportamento alimentar tem uma panóplia de pormenores que precisam de ser entendidos para que o processo de emagrecimento possa ser mais eficaz e menos doloroso mentalmente. Este comportamento alimentar divide-se em três tipos: ingestão emocional (quando comemos para compensar emoções); ingestão externa (quando comemos porque temos a comida à nossa disposição – por exemplo, passamos num café, vemos um pastel de nata na montra e temos de o ir comprar) ou restrição alimentar (que acontece em muitas dietas – a pessoa está um período de tempo a restringir diversos alimentos, contudo chega a uma altura que não aguenta mais e come tudo e mais alguma coisa). O comportamento alimentar influencia, e de forma direta, a obesidade. Sabia que a ingestão emocional, ou seja, comermos para aliviar estados emocionais mais negativos (ou positivos) é a segunda maior causa da obesidade no mundo?
E, portanto, depressa nos apercebemos da importância que este assunto tem; que esta obsessão pela comida tem. Mas pensemos juntos: quando um bebé chora a primeira coisa que a mãe lhe dá é o biberão com leite. Ele pode estar a chorar por imensos motivos diferentes (porque tem sono; porque tem uma dor; porque quer colo, etc, etc.) mas a primeira compensação que é feita é através do biberão, ou seja, da comida. E ele interioriza que a comida pode acalmá-lo numa situação de dor, por exemplo. Chega a criança e imagine que tem uma discussão com um colega na escola e está mais triste. O que é que faz? Fala com ele, tenta ajudá-lo e depois diz “A mãe (ou a avó) vai-te comprar um chocolate, queres?”. Mais uma vez, a compensação emocional, com a comida. E, portanto, como é que uma pessoa chega à idade adulta, onde os problemas são muitos e as emoções disparam, sem compensar tudo isso? Compensa como sempre foi compensada… Comendo! E até é bom, até nos faz sentir bem e criamos, desta forma, um vício.
Mas um vício que tem de ser travado e tratado a tempo.

Mafalda Leitão

Psicóloga na Clínica Em Forma. Com trabalho clínico e publicado na área da psicologia positiva, emagrecimento através da mente, depressão e ansiedade. Trabalho científico publicado na área da obesidade e perda de peso bem sucedida e menopausa.

Também poderá gostar de…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *